LITERATURA COMPARADA
segundo Tânia Franco Carvalhal
À primeira vista, a expressão "literatura
comparada" não causa problemas de interpretação. Usada no singular mas
geralmente compreendida no plural, ela designa uma forma de investigação
literária que confronta duas ou mais literaturas.
Eram denomidados estudos
literários comparados que, pela diversificação dos objetos de análise, concedem
à literatura comparada um vasto campo de atuação. Em síntese, a comparação,
mesmo nos estudos comparados, é um meio, não um fim. Mas, embora ela não seja
exclusiva da literatura comparada, não podendo, então, por si só defini-la,
será seu emprego sistemático que irá caracterizar sua atuação.
O surgimento da literatura
comparada está vinculado à corrente de pensamento cosmopolita que caracterizou
o século XIX, época em que comparar estruturas ou fenômenos análogos, com a
finalidade de extrair leis gerais, foi dominante nas ciências naturais. Entretanto,
o adjetivo "comparado", derivado do latim comparativus, já era
empregado na Idade Média. Já Em território francês era empregada amplamente na
Europa para estudos de ciências e linguística, é na França que mais rapidamente
a expressão "literatura comparada" irá se firmar
É nos primeiros decênios deste
século que a literatura comparada ganha estatura de disciplina reconhecida,
tornando-se objeto de ensino regular nas grandes universidades européias e
norte-americanas e dotando-se de bibliografia específica e publicações
especializadas.
As duas orientações referidas
estão na base do corpo de doutrina do comparativismo clássico francês. A
maioria dos manuais adota a denominação "escola francesa" para
designar um grupo representativo de estudos onde predominam as relações
"causais" entre obras ou entre autores, mantendo uma estreita
vinculação com a historiografia literária. A denominação "escolas"
começou justamente a ser empregada quando René Wellek se opôs ao historicismo
dominante nos estudos comparados dos mestres franceses, sugerindo uma cisão
entre a suposta "escola" francesa e outra, norte-americana. Ao lado
da orientação francesa, também se costuma designar como "escolas" a
norte-americana e a soviética. A primeira, despojada de inflexões
nacionalistas, distingue-se da francesa por seu maior ecletismo, absorvendo com
facilidade noções teóricas, em particular os princípios que regeram o new
criticism — movimento crítico que se desenvolveu a partir dos anos 30 nos
Estados Unidos. A literatura comparada é um ramo da história literária: é o
estudo das relações espirituais entre as nações, relações de fato que existiram
entre Byron e Púchkin, Goethe e Carlyle, Walter Scott e Vigny. Tasso da
Silveira, em seu livro Literatura comparada 4, sintetiza sua atuação como
professor da "nova" disciplina na então Faculdade de Filosofia do
Instituto Lafayette (depois Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade da
Guanabara). Sua adesão a Van Tieghem é integral, sendo que a obra de 1931 lhe
fornece os dados fundamentais de suas propostas comparativistas. Em todas as
importações passivas, as idéias são aceitas sem contestação. O livro de Tasso
da Silveira não foge à regra: absorve integralmente as sugestões de seus
mestres franceses, cuja receita era pesquisar influências, buscar identidades,
ou diferenças, restringindo o alcance da literatura comparada ao terreno das
aproximações binárias e à constituição de "famílias literárias".
Em todas as importações passivas,
as idéias são aceitas sem contestação. O livro de Tasso da Silveira não foge à
regra: absorve integralmente as sugestões de seus mestres franceses, cuja
receita era pesquisar influências, buscar identidades, ou diferenças,
restringindo o alcance da literatura comparada ao terreno das aproximações
binárias e à constituição de "famílias literárias". O trajeto, embora
rápido, pelos manuais mais conhecidos, revisa a bibliografia existente com a
finalidade de destacar os aspectos essenciais de cada proposta para que seja
possível contrastá-las.Assim, esse voo panorâmico em território francês, longe
de ser exaustivo, ocupou-se apenas com os textos que são melhor divulgados no Brasil.
Deixou de lado, por exemplo, uma contribuição fundamental, a de Etiemble,
sucessor de Carré na Sorbonne.
A literatura comparada é muito
mais que a comparação de dois livros ou de literaturas de países distintos, é a
oportunidade que temos de conhecer as outras literatura a partir de outra
literatura.